Geração musica descartável

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Eu tinha nove ou dez anos quando comecei a ficar viciada em vídeo-clipes e nesse tempo era diferente, lá em casa mais ainda. A televisão tinha um problema de reproduzir o áudio sozinha, então era conectada com um som daqueles que guardavam três cd’s e a bandeja deslizava (muito tecnológico e hipnotizante, a dança da bandeja).

Nós tínhamos tv por assinatura porque a mãe sempre frisou que a programação de sábado e domingo, justamente os únicos dias que podia assistir, era muuuuito ruim. Na tv fechada existiam dois canais basicamente musicais, o Multishow e a Mtv. A Mtv era interessante, mas eu sempre me irritava com as propagandas que não entendia (semiologia?), então colava pra ver o Top Tvz, no Multishow com os vinte clipes da semana, nacionais e internacionais em sua maioria.

Onde quero chegar é que pra poder ouvir aqueles hits por milhares de vezes, eu colocava alguma fita velha dos anos 90 (especialmente as do meu tio, com uns “dance” muito engraçados) dentro do som, e gravava por cima sempre que podia assistir. Lembro de uma música que ficou quase um mês no top, e eu a odiava por isso, mas ao mesmo tempo ela era demais, super grudenta e o clipe eu achava genial. Acho que era Hit That, do Offspring.

Nesse tempo eu não tinha uma boa internet, nem lembro de navegar na internet pra falar a verdade, mas eu tinha todo um processo pra conseguir ouvir aqueeelas músicas tão legais do momento. Eu não baixava nada e não usava muitos cd’s, por não ter o disckman que só ganhei com uns doze ou treze.

Hoje eu digito no meu celular e baixo dois singles de uma vez.

Somos a geração da música descartável, com clássicos semanais da melhor banda de todos os tempos da última semana. E na próxima já tem outra de outro momento.

Não dá tempo de conhecer tudo que acontece no mundo ao mesmo tempo, e o cenário musical parece confuso com a diversidade homogênea que nos cerca. É indie? é pop? k-pop? Hair Metal? folk brasileiro? precisa definir?

A moda, as ideologias, a arte, inspirações… tanto provém do movimento musical, um acompanhando e do outro numa dependência perfeitamente saudável. Mas com essa fase de ruptura entre o prazer da busca (e a dificuldade dela) acho que nos vendemos por pouco. Essa rapidez entre entre a troca de virais e figuras musicais é tão vazia. Um reflexo disso talvez seja os artistas de vanguarda que vão direto pro topo quando lançam álbuns novos. Há um público cativo, onde o ídolo foi construído através dessa busca, uma história onde o guri juntou aquela graninha pra comprar aquele cd, ou a menina que desafiou a mãe ao ouvir a pornográfica e revolucionária cantora da época. Fora as danças, as roupas e penteados…a atitude!

Sejamos menos superficiais com os novos cantores, também menos saudosistas. Conheço uma penca de gente que se prende nos “clássicos” sendo que existe tanta gente nova e boa que respeita toda a linhagem musical, que já estava aqui bem antes deles.

Observo uma linha bem visível entre as gerações musicais, nem sempre feliz com ela, mas inserida com toda certeza. Continuo viciada em clipes, geralmente sabendo o que andam ouvindo por aí, mas com os meus “clássicos” sempre presentes. Um pé dentro e outro fora dessa concha de consumismo musical.

E pensar que tantos nunca vão saber a ligação entre uma caneta e uma fita. Saudade.

Um comentário:

Igor Martins disse...

Não sei se a música é tão descartável assim. Talvez muitas se percam na mesma velocidade em que aparecem novos hits. E essa velocidade acaba comprometendo a qualidade e a profundidade da produção. A que faz a gente dançar, com samples bem simples, que não dê muito trabalho, mas que cause o efeito desejado: manter-se nas paradas por pelo menos algumas semanas.
Mas uma boa música sempre vai ser imortal e atemporal. Quem volta e meia não ressuscita no player músicas antigas, que atire a primeira pedra. hehehe :D