28 minutos

O Quereres – Chicas  ♥

Outro dia, no meu atraso habitual, sentei-me na parada de ônibus. Geralmente fico com meus fones, não procuro conversa, e fico concentrada, ora na calçada, ora na ladeira que de longe posso ver o coletivo. Seria um dia habitual, até que um moleque sentou ao meu lado.

Ele era moreno, pequeno, delgado e tinha o cabelo moicano com mechas loiras (a sensação do momento). Usava roupas velhas, e simples, mas tinha um celular boliviano que me chamou atenção. Não tinha mais de 12 anos, mas tinha um jeito de trabalhador.moleque

Falou-me algo que, com o meu som alto não consegui ouvir, e com a  minha mente lenta não posso lembrar. Sei que assim que vi o jeito que o menino falava fiquei interessadíssima. Perguntei a idade, o nome, o que fazia, se estudava e o que iria fazer no centro.

Disse que estudava, que trabalhava, e entre uma pergunta minha e uma resposta dele, o coletivo vinha e não parava, o que gerava dele grande indignação pois já estava atrasado para trabalhar na sua loja. Loja? dono de loja nessa idade? me perguntei,. Mas não quis parecer invasiva, então me limitei a pensar: “é… loja, nesses tempos de hoje…”, então prosseguimos com os diálogos curtos.

Quando finalmente o ônibus parou, o guri saltou para entrar, e o motorista disparou em alto e bom som:

“Aqui você não entra, pode descer, no meu carro você não entra mais”

O menino fez uma cara de tristeza, que seguiu com uma expressão de culpa. Enquanto isso, eu sem entender nada entrei, e tentei ouvir a explicação. O guri na verdade causou em outras viagens, muita confusão, depredando o patrimônio e etc., mas o que irritou mesmo o motorista, foi a petulância do moleque, que mesmo quebrando o ônibus quando foi ameaçado, disse que que se algo acontecesse ia chamar o Conselho Tutelar.

Aquele menino de fala rápida, tinha uma malícia e uma esperteza que só a rua dá. Ela te dá tudo isso, sem essa petulância de “bicho solto” não há como seguir. “ A rua tem fome, a rua tem sede “ palavras da cabocla da minha vó, Dona Jurema. Sendo assim, ao mesmo tempo que ela te transforma em algo forte, ela tira um pouco da tua inocência. E do guri ela tirou a infância.

Eu não consigo esquecer essa cena, porque sempre penso que o motorista não sabia desse lado B. O lado da dificuldade do garoto, que pelo pouco que vi, tinha grandes problemas e ainda assim seguia num sábado para a grande labuta que os seus pés e mãos sujos denunciavam.

O Sem nome, me confirmou o mundo é cruel, mas que a crueldade vem não só do lado de quem aplica, vem junto com a decisão de fechar os olhos para os motivos da crueldade dos outros.

 

                                                                                                                              Nana

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o post, que bom ver que sua escrita está proporcionando uma agradável leitura... Nas coisas mais simples e aparentemente corriqueiras é possível, também, encontrar poesia.

(Sem Reclamações desta vez)
Alanovitch

nanapocket disse...

Alan <3

Assim tú me acostuma mal, me fazendo elogio :)
Obgda por ler. Tenho tentado captar as coisas simples ao redor. Para alguns que escrevem é mais fácil, pra mim é complicado colocar num contexto, já que não sou tão curiosa quanto parece.